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Em casa....(5)

Em tempos de notícias difíceis de digerir, preocupação excessiva e um certo desânimo que às vezes insiste em nos rodear, uma leitura leve e que se molda em nossa cabeça como um filme é uma excelente pedida, não acham? 
Pois bem... há algumas semanas eu devorei em questão de 2 horas e meia "A Leica: uma novela fotográfica". Comecei e não conseguia mais parar. Quando acabou, rolou até uma certa resistência em voltar à realidade...

No flamenco temos uma expressão para algo que nos envolve de uma forma que não conseguimos mais soltar: te engancha. Foi exatamente assim que me senti ao ler este livro, o primeiro escrito por Nick El-moor.

Espero que seja o primeiro de vários outros, pois, a forma como o autor nos conduz nessa história é bem especial e temos a sensação de viajamos tanto no tempo - de volta ao início dos anos 1990 (como não amar?) e no espaço, algo que neste período faz um bem enorme! 

Como não quero dar spoiler da história, deixo aqui a sugestão da leitura e peço que me contem depois o que acharam.

O livro está disponível na Amazon, é só clicar aqui, e o preço é super acessível! 


Espero que gostem da dica! Para embalar a leitura, tem uma playlist preparada pelo próprio autor no Spotify. Super vale a pena acessar!

Deixo aqui uma música que fez parte da minha adolescência, época em que as bandas que estouraram nos anos 80 na Europa chegavam por aqui com algum delay. Elas vinham nas malas das pessoas que tinham a oportunidade de viajar e trazer álbuns e fitas cassetes importadas. O hit é de 1985, mas a lembrança que tenho é do meu pai escutando esta música por volta de 1991, enquanto levava suas filhas adolescentes para o colégio... Saudade da boa!! 


Em casa... (3)

Mais cedo eu lia uma notícia em um jornal local, onde dizia o seguinte: "Presidente voltou a causar aglomeração e afirmou que quem não for idoso ou tiver problemas de saúde 'tem que trabalhar'". Esse ser ignóbil acha realmente que as pessoas estão em casa deitadas numa rede bebendo água de coco?

Eu trabalho da hora em que eu acordo até a hora em que vou dormir para tentar pagar as despesas de uma escola que está fechada simplesmente porque é completamente insano pensar em juntar pessoas para uma aula de dança neste momento. O mesmo vale para tantos outros serviços que estão temporariamente suspensos por uma questão óbvia de saúde pública.

 Estou sentindo na pele o que é precisar retomar as atividades e não poder. Mas tenho informação suficiente para entender que neste momento, a levianidade de uns pode colocar todo um país em risco de colapso.



Sei que tem gente que não entende isso, provavelmente por ignorância. No entanto, ver pessoas minimamente informadas aderirem a essa campanha pela reabertura das atividades tem feito com que eu perca, a cada dia, um pouco mais da minha fé na humanidade.

Hoje me deu uma vontade enorme de escutar Radio Tarifa, um dos grupos que mais amo há mais de duas décadas! Os ouvi pela primeira vez na Espanha, e foi amor à primeira vista. Comprei tudo deles, virei fã de carteirinha... até que o grupo acabou e, depois, para minha tristeza, o cantor Benjamin Escoriza faleceu... Embora eles tenham músicas beeem alegres, esta especialmente melancólica foi a primeira que toquei aqui em casa esta tarde. 


Logo abaixo deixo uma mais animadinha que é para não deixarmos o baixo astral tomar conta de vez. Dias melhores virão. Assim espero. 


Inverno e paz



Tá frio nesse inverno aqui na capital federal, não? Esta não é a minha estação favorita, mas confesso que é a época em que acho a cidade mais linda, pois os ipês florescem e as noites de céu limpíssimo são simplesmente inspiradores. A prova de que nada é 100% bom ou 100% ruim. 


Quero tentar aproveitar o mês de julho para retomar alguns projetos pessoais. Nesses momentos em que a mente precisa se organizar, uma música mais tranquila faz um bem danado. Que tal esta delícia de álbum? Stone Flower foi gravado por Tom Jobim em 1970 e, embora já esteja com 40 e poucos anos, ainda me parece super atual. 



Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...
Mario Quintana

Granados, Sevilla e boa leitura

Apaixonada por este tema há anos, cada vez sinto mais necessidade de parar de vez em quando para ler alguma publicação sobre a Andalucía do século 19. Não me canso de olhar e estudar as pinturas costumbristas e pensar o que passava pela cabeça das pessoas que ali chegavam após viajar dias e dias para desembarcarem numa região tão fascinante!

Vendedoras de rosquillas en un rincón de Sevilla (Wssel de Guimbarda)
Esta semana comecei a ler este livro, online. É muito interessante! Cronica de la Provincia de Sevilla foi escrito em 1869 por Don José Bisso. Basta clicar no link que você cairá no site da Biblioteca Virtual Andalucía.


Ah, e se quiserem viajar um pouco mais, que tal darem uma lida nesta matéria que fala um pouco sobre a Sevilla costumbrista?

Deixo sugestão de música para acompanhar a leitura!

Aretha outra vez... e a maravilha de um programa simples

Como enjoar dessa voz perfeita? Só deu Aretha Franklin aqui em casa no feriado... Pela manhã rolou muito flamenco, pois estávamos em pleno ensaio lá na escola (Rê e eu, apenas). 


Mas, chegando em casa, parti pro melhor programa ever... ficar quieta escutando música acompanhada do trio felino (pois marido está longe). Afinal, ficar à toa ouvindo música, lendo um bom livro ou vendo um filme legal é simplesmente um bálsamo para o espírito. Amo muito estar em casa fazendo (quase) nada...

“Os prazeres mais singelos são o último refúgio das pessoas complicadas.” 
― Oscar Wilde


Guerreiros, é o que nós somos!

“Guerreiros, é o que nós somos!”

Frase tirada do clássico de Alexandre Dumas, “Os Três Mosqueteiros”, minha nova série do coração, que está disponível na Netflix e é uma delícia de assistir!



Mas, a frase serve também para as pequenas e pequenos empresários neste país. Somos, na minha opinião, todos guerreiros. Como é difícil às vezes lidar com tanta instabilidade, insegurança e baixaria (sim, elas existem, e com muito mais frequência do que muitos podem supor, inclusive vindo de altos escalões de imobiliárias milionárias da cidade)!

Episódios recentes têm nos levado a questionar várias coisas a respeito dos caminhos que traçamos para nossas vidas. Jamais em tom de arrependimento, mas sim, buscando serenidade para tomar decisões importantes e, de preferência, certeiras.

Ainda bem que a experiência de 18 anos de OF nos ensinou que, por mais cansativo que seja ser dono do próprio nariz.... ops, negócio... vale muito a pena quando fazemos aquilo que mais amamos. Que assim seja por muito tempo ainda!

Sobre o aceitar e um café para acompanhar


Como temos dificuldade em aceitar algumas coisas, não? Se pudéssemos ter sempre a serenidade de olharmos as situações incômodas como parte de nosso processo de aprendizado, quem sabe, as coisas poderiam se tornar mais fáceis e, consequentemente, a vida mais leve.

Façamos deste desafio um exercício diário. Com paciência, boa música, ótima companhia e um café para acompanhar, pode ser que a gente nem dê tanta bola assim para aqueles dias mais ásperos.

Se eu aceito o sol, o calor, e o arco-íris, preciso aceitar também o trovão, a tempestade, e o raio. 
~ Khalil Gibran


Ensemble Aromates para um domingo de quase primavera

Passar o domingo literalmente de molho em casa foi, definitivamente, necessário e super proveitoso. 

Esta semana começa a primavera, provavelmente, a minha estação preferida! Começam também os ensaios e, com eles, a correria para preparar nosso novo espetáculo. Ademais, os próximos dias serão para tomar algumas decisões importantes. Sem falar na florzinha mais linda de todas que está chegando!!! Vem, Ciçaaaaaa!! 


"Prometi seguir na mesma direção tão logo a primavera desabrochasse e os campos se cobrissem de flores" Jack Kerouac - On the Road.

Agora há pouco, enquanto fazia um pequeno check list para a semana, escutava um CD simplesmente maravilhoso do Ensemble Aromates que havia sido recomendado pela querida amiga Elisa, autora do blog De al-Andalus a Sefarad. 

Essa música é a minha favorita, dessas que escuto até não poder mais. Como não jurar, ainda que por alguns minutos, que estamos em outro lugar e em outra época, bem longe daqui?

 


Jardins de Luz e um Coração de Ouro

Resolvi começar a ler "Jardins de Luz", de Amin Maalouf, hoje...

Por uma incrível proeza do destino, abri sem querer nessa página, enquanto me decidia se iniciaria ou não a leitura, e me deparei com este trecho lindo de viver, perfeito para este setembro que vem chegando com muito carinho!
Como acontecia certas vezes, suas meditações, iniciadas com um monólogo, tomaram a forma de um diálogo com seu alter ego, o "Gêmeo".
- Para tudo o que tenho que fazer quanto tempo terei?
- Sobre isso nada saber-as - disse-lhe o Outro.
- Poderia ao menos saber se disponho ainda de sete anos, se conseguirei atingir a idade do Cristo, de Alexandre?
- Tens a eternidade e o instante, mas e daí? O tempo é uma armadilha das Trevas, não te deixes engabelar. Tua única preocupação deve ser tua missão, cada dia!
- Poderia ao menos saber se verei o fim de minha obra?
- Confia o futuro a mim; caminha, teu destino galopa, distante, a tua frente. As gentes estão impacientes em Beth-Lapat!"
~ Amin Maalouf in: Jardins de Luz, p. 152.
Mandala produzida pela artista Kathy Klein

A música escolhida pro post foi "Heart of Gold", pois estou com ea na cabeça desde o dia do meu aniversário. Foi a primeira música que ouvi na última sexta, enquanto preparara uns muffins veganos para o lanche do final da tarde. Perfeita, não?



Para quem quiser mais informações sobre o livro, aí vai um pedaço da "orelha":

Maomé, Buda e Jesus têm milhões de fiéis. Mani não tem um sequer. Aquele que em seu tempo quis conciliar todas as religiões tornou-se o mais esquecido entre os profetas. O que resta hoje do maniqueísmo, uma das grandes religiões fundadas na Antiguidade e que teve seguidores na Índia, China, África, Itália e sul da Espanha, é a visão deformada de uma luta simplista entre o bem e o mal, resumida em uma palavra próxima ao insulto. O estudo de fontes árabes, persas e armênias renovou o conhecimento a respeito de Mani, e a descoberta de manuscritos escondidos perto de Tebessa - Argélia - trouxe à tona novos dados sobre a vocação deste protagonista de Jardins da Luz. 
O profeta, que foi médico e também pintor, tem a sua vida reconstituída numa história que começa menos de dois séculos após a morte de Cristo. [...]


Até quando vale a pena tentar?

Pois todos, pelo menos uma vez na vida, já se questionaram se valia a pena ou não tentar um pouco mais. Insistir é legal, desde que a determinação não nos consuma.


“Passei a pensar em soluções na vida. As pessoas que resolviam as coisas em geral tinham muita persistência e um pouco de sorte. Se a gente persistisse o bastante, a sorte em geral chegava. Mas a maioria das pessoas não podia esperar a sorte, por isso desistia.” (Charles Bukowski, In: "Pulp")


 

Artur da Távola regado a Hindi Zahra

Artur da Távola e Hindi Zahra como tratamento complementar para uma enxaqueca daquelas...



Hoje pela manhã, enquanto colocava algumas pendências em dia e tentava driblar uma enxaqueca bem chatinha, encontrei este link com uma pequena compilação de textos escritos por Artur da Távola (na verdade, tem um do Rubem Alves sobre ele, belíssimo). 

Resolvi deixar guardado aqui para não perder a referência. http://www.velhosamigos.com.br/Colaboradores/Diversos/atavola8.html

Porque a vida pode ser leve... bem leve.
"A grandeza do amor está na impossibilidade de sua catalogação, cristalização, definição, congelamento em fórmulas, formas e fôrmas. Ele é tão amplo, misterioso e profundo que sempre está além de onde o colocamos".
 Artur da Távola





Erik Satie, Raduan Nassar e a fantasia de se sentir embalada pelo mundo

Sou incapaz de descrever a sensação que esta música, Gnossienne nº 1 (de Erik Satie) me desperta. Mas é a mesma sensação que tomou conta deste restinho de sábado. Resolvi registrar aqui no blog porque gostaria de deixar este 6 de junho guardado na memória. Me ocorreu que este texto fantástico de Raduan Nassar cairia bem por aqui... para desanuviar. :)



Aí pelas Três da Tarde

Raduan Nassar
(para José Carlos Abbate) 


Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Texto extraído do livro "Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.


Amor, liberdade e devaneios de final de maio

Ser livre custa caro pra caramba. Se é que a liberdade é algo possível...

Cada vez que penso sobre este tema (e isso acontece quase todo dia), me lembro do polonês Zygmunt Bauman, para quem a relação entre liberdade e segurança é um pêndulo na história da civilização. Segundo ele, esta relação é precisamente o que constitui a civilização: a busca pelo equilíbrio entre segurança e liberdade. E ainda, até hoje nenhuma sociedade conseguiu atingir esta harmonia - provando tal dilema como sem solução.



E me convenço cada vez mais que as pessoas vão se metendo em verdadeiras furadas por causa da necessidade fortíssima de se sentirem seguras.

Julieta Venegas chega neste momento do post para embalar o resto da leitura. :)

He estado escuchando hoy
sin realmente escuchar
más bien solo pensando hasta donde llega
lo que llamamos libertad

Si es andar saltando de una estrella a otra
o es nadar al río y llegar hasta el mar
¿hasta dónde llega lo que llamamos libertad?

Hacer lo que en verdad sentimos
y sentir lo que hablamos
rendirá nuestras almas su propia
y justa y libre libertad, libertad



Complicado, não?

No que se refere ao amor então... um festival de confusões. E um lamaçal de desilusões e de sofrimento, diria eu, algumas vezes desnecessários. Por que associar os sentimentos que temos uns pelos outros a padrões de relacionamentos? Que necessidade estranha é essa de rotular tudo, de controlar e de cobrar? E por que (Why, God, Why?) a amizade (leia-se tudo aquilo que não conseguimos encaixar na estranha definição de "relacionamento amoroso") é tão subestimada pelas pessoas? 

Gente, a amizade é uma coisa linda! Que raro termos afinidades verdadeiras com outras pessoas! Lembram daquele texto perfeito de Artur da Távola, onde ele dizia que 

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, 
delicado e penetrante dos sentimentos. 
E o mais independente. 
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, 
as distâncias, as impossibilidades. 
Quando há afinidade, qualquer reencontro 
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto 
no exato ponto em que foi interrompido. 

Afinidade é não haver tempo mediando a vida. 
É uma vitória do adivinhado sobre o real. 
Do subjetivo para o objetivo. 
Do permanente sobre o passageiro. 
Do básico sobre o superficial. 

Ter afinidade é muito raro. 
Mas quando existe não precisa de códigos 
verbais para se manifestar. 
Existia antes do conhecimento, 
irradia durante e permanece depois que 
as pessoas deixaram de estar juntas. 
O que você tem dificuldade de expressar 
a um não afim, sai simples e claro diante 
de alguém com quem você tem afinidade. 

Afinidade é ficar longe pensando parecido a 
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam. 
É ficar conversando sem trocar palavras. 
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento...

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, 
nem sentir para, nem sentir por. 
Quanta gente ama loucamente, 
mas sente contra o ser amado. 
Quantos amam e sentem para o ser amado, 
não para eles próprios. 

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. 
É olhar e perceber. 
É mais calar do que falar, ou, quando falar, 
jamais explicar: apenas afirmar. 

Afinidade é jamais sentir por. 
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. 
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. 
Compreende sem ocupar o lugar do outro. 
Aceita para poder questionar. 
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar. 

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças. 
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, 
quanto das impossibilidades vividas. 

Afinidade é retomar a relação no ponto em que 
parou sem lamentar o tempo de separação. 
Porque tempo e separação nunca existiram. 
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, 
para que a maturação comum pudesse se dar. 
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, 
cada vez mais a expressão do outro sob a 
forma ampliada do eu individual aprimorado.


E que lindo quando descobrimos afinidade com outras pessoas! Mas, por que isso tem que se converter em alguma coisa que precisa ser definida, controlada e rotulada? Alguns diriam: "mas não é amizade, tem algo a mais." E por que a afinidade seria algo menos importante? E esse algo mais que as pessoas querem acreditar que existe não seria uma expectativa criada, uma tentativa de encaixar este sentimento em algum tipo de definição para que ele se converta numa "relação amorosa"? 

Sei lá... o intuito do post não é compartilhar nenhuma epifania. Aliás, cada um de nós sabe da nossa própria vida, certo?

É que realmente às vezes é cansativo ver pessoas queridas sofrendo por causa dessas relações construídas em cima de ilusões, de expectativas, de medos. E por causa de ciúmes... Sugestão: Leiam mais Emma Goldman. Mas leiam de peito aberto. Vale a pena. 

Não nego minha profunda admiração pelas pessoas que tem a coragem e a maturidade de saber estar só. Só no sentido de não sentirem necessidade de encaixar o que sentem em padrões de relacionamento. 

É incrível ver pessoas passarem décadas dando murro em ponta de faca. A faca de uns é o suplício de uma relacionamento do qual não sabem como sair. Para outros, é ficar pulando de relacionamento em relacionamento, como se o problema estivesse nas pessoas com quem se relacionam ou nelas próprias. Mas na verdade, não há problema. O que existe é uma expectativa que ninguém tem obrigação de atender.

O ser humano é tão tão complexo que a probabilidade das pessoas conseguirem atender à expectativa de acertar nas relações é baixíssima. Mas ainda assim, a maioria da população passa a vida fazendo o possível e o impossível para se enquadrar em alguma coisa.

Por que este medo danado da solidão? Como se estar ao lado de alguém significasse estar em companhia. Ou boa companhia. 

Certa vez, o escritor espanhol Federico García Lorca escreveu: "La soledad es la gran talladora del espíritu". Eu, particularmente, concordo em gênero, número e grau com esta frase. E acho engraçado - para não dizer triste - ver como as pessoas tem medo de estar sozinhas, como se isso fosse sinônimo de fracasso ou de infelicidade.

Sim, estar só é assustador (e viver só é caro e cansativo também. Sem contar o medo de um dia precisar de ajuda e não saber a quem recorrer). Mas esta é apenas uma das facetas da solidão. Estar só é estar consigo mesmo, é uma oportunidade de se conhecer cada vez mais e de buscar serenidade para lidar com as intempéries da vida, pois elas surgem a cada instante. E é aprender a aceitar os outros como são. É aprender a compartilhar o que temos de melhor, ao invés de despejarmos nossas inseguranças nas pessoas e esperar que elas resolvam vários dos nossos problemas. É aprender a cuidar com carinho e dedicação dos nossos mais profundos sentimentos, pois eles merecem sim ser regados e tratados com amor (Isso me lembra uma frase que um grande amigo costumava repetir sempre: quanto melhor eu for, melhor serei para quem amo ou protejo).

E saber estar só é estar em busca de ser o melhor que podemos, ainda que para muitos o que eu estou escrevendo aqui seja uma verdadeira loucura. 

Alguém me perguntou um dia: qual o problema em estar com outra pessoa? Isso não é problema. O esquisito é o esforço tremendo em definir as relações e o medo delas caminharem para uma direção diferente da que gostaríamos. Acho que a pergunta é: quem disse que estar só é abrir mão dos sentimentos - e tudo que daí vier em consequência -  que temos pelas outras pessoas? 


Se o meu amor for neurótico, se for possessivo e doentio, 
eu só poderia ensinar às pessoas um amor 
neurótico, possessivo, doentio... 
Se o meu conhecimento por alguma coisa for vasto 
e interminável, posso lhes dar isso. 
Assim, minha responsabilidade para comigo 
é tornar-me enorme, cheio de conhecimentos, cheio de amor, 
cheio de compreensão, cheio de experiência, cheio de coisas belas, 
de modo que posso dar isso às outras pessoas... 
~ Leo Buscaglia


Não vejo muito sentido esse desespero em querer situar as relações entre as pessoas - e que são de infinitas cores, sabores, nuances e possibilidades - no tempo e no espaço, como se isso pudesse ser guardado numa garrafa de vinho. E como se fossem processos imutáveis. Menos sentido ainda é o sofrimento de alguns que passam a vida tentando aparar as relações para que elas se encaixem em determinados padrões.

Sei que minha forma de pensar não tem pé nem cabeça para um monte de gente que eu conheço e com quem já tive a chance de conversar. 

Mas hoje deu uma vontade enorme de anotar um pouco sobre o que eu penso e indicar este texto de Rodolfo Ruiz Reed, o qual me parece bastante sensato.

"Por esto de liberar al amor de estas instituciones, 
es que esta práctica es mal vista en la sociedad 
de todas las épocas, pero es por el desconocimiento o
 ignorancia de lo que realmente significa el amor libre." 

Não poderia terminar o post sem lembrar do que o genial Khalil Gibran escreveu em "O Profeta":

"O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.
O amor não possui
nem quer ser possuído.
Porque o amor basta ao amor.
E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso."

E sem mencionar este texto perfeito do filósofo Huberto Rohden:

Adeus, alma querida...

Se, no caminho do teu Saara, encontrares uma alma que te queira bem, aceita em silêncio o suave ardor da sua benquerença - mas não lhe peças coisa alguma, não exijas, não reclames nada do ente querido.
Recebe com amor o que com amor te é dado - e continua a servir com perfeita humildade e despretensão.
Quando mais querida te for uma alma, tanto menos a explores, tanto mais lhe serve, sem nada esperar em retribuição.
No dia e na hora em que uma alma impuser a outra alma um dever, uma obrigação, começa a agonia do amor, da amizade.
Só num clima de absoluta espontaneidade pode viver esta plantinha delicada.
E quando então essa alma que te foi querida se afastar de ti - não a retenhas.
Deixa que se vá em plena liberdade.
Faze acompanhá-la dos anjos tutelares das tuas preces e saudades, para que em níveas asas a envolvam e de todo mal a defendam - mas não lhe peças que fique contigo.
Mais amiga te será ela, em espontânea liberdade, longe de ti - do que em forçada escravidão, perto de ti.
Deixa que ela siga os seus caminhos - ainda que esses caminhos a conduzam aos confins do universo, à mais extrema distância do teu habitáculo corpóreo.
Se entre essa alma e a tua existir afinidade espiritual, não há distância, não há em todo o universo espaço bastante grande que de ti possa alhear essa alma.
Ainda que ela erguesse voo e fixasse o seu tabernáculo para além das últimas praias do Sírio, para além das derradeiras fosforescências da Via-Láctea, para além das mais longínquas nebulosas de mundos em formação - contigo estaria essa alma querida...
Mas, se não vigorar afinidade espiritual entre ti e ela, poderá essa alma viver contigo sob o mesmo teto e contigo sentar-se à mesma mesa - não será tua, nem haverá entre vós verdadeira união e felicidade.
Para o espírito a proximidade espiritual é tudo - a distância material não é nada.
Compreende, ó homem - e vai para onde quiseres!
Ama - e estarás sempre perto do ente amado...
Em todo o universo... Dentro de ti mesmo.

(Texto extraído do inspirado livro “De Alma Para Alma”, do genial filósofo brasileiro Huberto Rohden – Editora Martin Claret.



Amor, Leo Buscaglia e Aretha

Passei meses pensando em ter pelo menos uma semana de descanso - daquelas em que não houvesse absolutamente nada a fazer a não ser ficar em casa lendo, escutando música, testando receitas e me aventurando na máquina de costura, atualmente encostada na estante. Mas confesso que após um ano tão corrido e cheio de emoções - ótimas, boas e não tão boas - eu já estou começando a ficar impaciente para que as aulas recomecem e minha rotina volte minimamente ao normal. Poder curtir a casa e a família é ótimo. Mas a eterna sensação de que a vida passa e temos que aproveitar cada minuto está sempre dentro de mim. E no caso de uma virginiana, isso significa aproveitar fazendo algo útil. hahahaha!


Eu havia prometido a mim mesma que após o doutorado iria passar algum tempo lendo coisas tranquilas e agradáveis. Comecei colocando em dia a leitura dos livros de flamenco que trouxe de minha última viagem à Espanha. São 5 livros e estou lendo com bastante calma, pois são para degustar. Também comecei uma biografia e tive a honra de receber de uma amiga muuuuuito querida a versão final de um livro escrito por ela, que agora tentará correr atrás de publicá-lo. Estou adorando e desejo que tudo dê certo, pois o livro merece ser publicado e lido por muitos. 

Mas hoje especialmente acordei com vontade de ler Leo Buscaglia.... tenho dois livros dele que adoro e que tiveram papel importante na minha vida há cerca de 12 anos... os trechos que copiei abaixo são de uma outra publicação que eu li online, chamada "Amor". Está em espanhol.

Para ler escutando Aretha Franklin...

**Amor**
Leo Buscaglia

Si reconoces tu necesidad de ser libre para saber quién eres, permitirás que otros también tengan la libertad para hacerlo.
...
El amor responsable significa aceptar y entender. El amor crece a distintos ritmos y en direcciones diferentes en todos los individuos. 
...
El amor nos ayuda a aceptar el hecho de que otro individuo se comporta en la forma en que puede comportarse en ese momento. Requerirle que se conduzca de otra manera es pedirlo imposible. El amor responsable es empático. 
...
Porque si el que ama se interpone en el camino de otro, entonces ya no está amando. El amor responsable tiene en su núcleo universal la humanidad del hombre. 
...
El amor significa un constante compartir activo. Si uno tiene amor para dar, lo puede brindar a todos en el mundo y seguirá teniendo el mismo amor. Nunca perdemos nada al compartirlo, ya que para empezar nada es únicamente nuestro. De hecho, el amor adquiere significado sólo cuando se comparte.
...
El amor necesita libertad. Ya dijimos que, en todo sentido, el amor siempre es libre; se da y se recibe libremente, pero también necesita libertad para poder crecer. 
...
Para estar abierto, confiar, creer, tener esperanza y vivir en el amor, se requiere de la mayor fuerza que se posea. Esto se experimenta tan rara vez en la vida real que la gente no sabe cómo enfrentarlo una vez que lo descubre.

Setembro chegou com ares de fotografia em sépia


Chegou o tão esperado setembro com suas belas flores anunciando a primavera....  Por alguma razão, o dia acordou com cara de fotografia em sépia, com ares de anos 60. Neste caso, um pouco de Drummond embalado por Donovan para completar o quadro.

Aaaaah, continuamos esperando pela chuva do caju, gente!

Maneiras de amar 
(Carlos Drummond de Andrade ~ Contos Plausíveis)

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.

Em vâo o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na ocasião devida.

O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.

Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido?" "Não", respondeu "estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É a minha maneira de amar, ele sabia disso e gostava".






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